segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Amnésia efêmera...

Um breve relato sobre um problema que acontece. Comigo isso se passou duas vezes, ambas assustadoras. Aqui conto para vocês como foi a primeira...!



Algumas vezes na minha extensa carreira de Luthier, (6 anos) eu me deparava com algum cliente que se mostrava no mínimo diferente dos outros. E isso geralmente acontecia em véspera de feriado, não sei porque. Era um feriado não lembro mais de qual santo, mas era de santo pois é o que mais tem nessa terra. E um sujeito bem vestido e um pouco mais de 50 anos entrou na minha oficina desembarcando de um carro que tinha três letras num emblema. Trazia nas mãos um violão com o braço quebrado. Sem problemas, eu estava ali para isso mesmo então mandei as boas vindas:

-Bom dia amigo!Tudo bem?

-Ah! Bom dia! O senhor é que é o luthier?

-Sim! E aqui está o meu cartão! Respondi meio indignado estendendo um cartão para o homem.

-É que eu pensei que você fosse mais novo....um pouco!

-Bem! Se o senhor quiser eu chamo minha filha para lhe atender! Aí eu já estava pensando em quebrar o resto do violão na cabeça dele.

-Não, me desculpe! Atalhou o senhor sacudindo as duas mãos como se limpasse uma vidraça.

-É que me disseram que um rapaz que era o luthier, eu imaginava ainda um jovem! Também que era músico, então já fui fazendo uma imagem mais juvenil.

Juvenil?  Donde é que esse cara saiu? Pensei. Fazia muito tempo que eu não ouvia esse adjetivo.

-Não companheiro, eu já sou um veterano! Respondi fazendo aquilo que menos sei fazer, sorrir.

-Pois é o violão foi quebrado! Tem conserto isso?

-Tem! Respondi examinando o estrago.

-E é muito caro?

-Não! Nada de exagerado! Na verdade esse é o conserto dos mais fáceis para se fazer! A aparência é desoladora, mas é só aparência! Falei tudo isso e depois me arrependi. Puxa, eu devia fazer o maior mistério e valorizar o meu trabalho. Mas agora já tinha falado.

-Ah! Mas que interessante! Respondeu o cliente muito feliz.

-Amanhã não vou trabalhar, mas na quinta-feira o senhor pode vir buscar! Vai custar trinta reais,( na época era um bom dinheiro).

-Então vou deixar pago e na quinta eu pego!

Larguei o violão do moço e fui colocar o dinheiro na minha carteira, que deixava na escrivaninha.

Estava de costas para a entrada da oficina, mesmo assim tive aquela sensação de que alguém havia entrado. Mas não me virei totalmente só olhei para um espelho que eu tinha pendurado, mas não vi ninguém. Não havia ninguém então não dei importância. Havia deixado o violão numa poltrona que eu tinha num espaço que servia de sala de espera, na verdade seria um cubo de espera, pois só cabia uma pessoa e olhe lá. Voltei para pegar o dito instrumento e qual não a minha surpresa quando vi que ele estava consertado. Mas eu nem tinha feito nada, acabei de colocar o dinheiro na carteira. Pensei que havia trocado por outro, mas seria impossível pois daquela marca só tinha aquele na oficina. Fiquei que nem tonto indo pra lá vindo pra cá feito barata tonta, mas enfim peguei o violão e dedilhei alguma canção, estava até afinadinho. Olhei com atenção a parte que estava quebrada e não pude acreditar, estava intacta. Nenhuma marca, nada, até a pintura parecia original. Neste instante um amigo parou na frente da oficina e gritou para dentro.
-Daí guerreiro! Como foi o feriadão?
Feriadão pensei.

-Que feriadão rapaz? Tá variando? Perguntei abrindo os braços. O amigo só deu uma risadinha e continuou andando. Eu comecei a rir! Não havia entendido nada.
A verdade é que os três dias do feriadão tinham passado e eu estava outra vez às voltas com meus instrumentos e a impressão que eu tinha é que não havia voltado para casa. Quanto ao violão, sinceramente nada posso dizer...!



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